Mulheres da CUT discutem assédio moral contra trabalhadoras no Nordeste

18 de Junho de 2021, 05:48

Com temática diversa e muitas palestrantes, Encontro online discutiu caminhos para vida feminina no Nordeste com saúde, trabalho, direitos iguais e sem machismo

"'Você não está preparada' é o que ouvimos. Mas isso é só uma desculpa machista para manter a mulher fora dos espaços de poder. O caminho para o fim do assédio é a denúncia", afirmou Junéia Batista, Secretária da Mulher da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Encontro Regional Nordeste Mulheres na Luta por Políticas Públicas e Maior Participação Política, realizado nos dias 11 e 12 de junho, sexta e sábado.

Mais de 100 mulheres trabalhadoras dos estados nordestinos de Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco participaram do encontro on-line e iluminaram debates com poesia, arte, além de importantes reflexões sobre a condição da mulher e desafios da luta feminista no Brasil.

Com a pandemia, o índice de violência contra a mulher, que já era alto, aumentou. Além da violência física, também cresceu o assédio moral, desemprego, baixa remuneração, desvalorização do trabalho feminino e a sobrecarga com tarefas domésticas.

Ana Georgina Dias, economista do Dieese, afirmou que o desemprego na pandemia atinge principalmente o público feminino, pois apenas 39% das mulheres em idade economicamente ativa estão empregadas, enquanto os homens empregados alcançam a marca dos 57%.

Além da remuneração inferior a dos homens, a sobrecarga da mulher durante a pandemia foi outro índice apontado. Segundo dados apresentados pela economista do Dieese, mesmo a mulher empregada dedica em média 22 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto os homens gastam 11 horas semanais, a metade do tempo, em afazeres domésticos.

Flagrante do racismo estrutural, Ana revelou que entre as pessoas em idade de trabalhar, as mulheres pretas e pardas juntas somam quase 54% das pessoas desempregadas. No geral, a população negra desocupada chega a mais de 60% enquanto os brancos desocupados são apenas 36,3%. "A gente não age sobre a realidade sem conhecer a realidade. Então é desanimador, mas é preciso apresentar esses dados", afirmou Georgina.

Acesse o link e confira a pesquisa do Dieese a respeito da sobrecarga da mulher trabalhadora nesta pandemia.

Trabalho Doméstico

E por falar em machismo, racismo e preconceito de classe, Creuza Oliveira, dirigente da Fenatrad (Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas) falou sobre a morte do garoto Miguel, de 5 anos, filho da trabalhadora doméstica Mirtes, que foi abandonado pela patroa no elevador do prédio.

"Este crime aconteceu numa violação da condição da quarentena que estava instaurada naquele momento. Muito forte este acontecimento. Uma desgraça que revela o desespero da trabalhadora que não encontra creche para deixar o filho. A necessidade de cuidar do filho e a luta pela sobrevivência para trabalhar. Por isso nossa luta permanente por creche. Nós, trabalhadoras domésticas, temos mais de 80 anos de organização sindical. E avançamos sim. O fato de termos sindicatos em quase todo o Brasil é grande avanço. No Nordeste nossos sindicatos estão na luta, no movimento de mulheres, no movimento negro, no movimento social por moradia e no movimento sindical", informou Creuza.

A dirigente sindical falou sobre as dificuldades enfrentadas pelas trabalhadoras domésticas, chegando a casos absurdos de violência, cárcere privado, assédio moral, entre outros. A dirigente fez um panorama histórico da luta das trabalhadoras domésticas no Brasil e agradeceu o convite. "Precisamos fazer isso mais vezes para fortalecer a organização das mulheres trabalhadoras da CUT", afirmou Creuza Oliveira.

Avanço Conservador

No segundo dia do encontro, a professora da UFAL Sandra Lúcia dos Santos destacou a importância das mulheres feministas voltarem a disputar espaço nos conselhos de direitos representativos da sociedade civil. Da mesma forma, reforçou a necessidade das mulheres feministas participarem dos conselhos tutelares que são espaços de atuação, inserção social e não podem ficar dominados pelo retrocesso de ideologias conservadoras, machistas, misóginas, como tem ocorrido em várias partes do Brasil de maneira estrategicamente organizada.

O tema parece continuar a exposição feita pela médica sergipana Priscilla Batista explicando como o conservadorismo e o desmonte das políticas públicas têm afetado a saúde e até a vida das mulheres. "A saúde sexual e reprodutiva em nossa sociedade enfrenta vários obstáculos como a misoginia (ódio ou aversão às mulheres), o racismo e a aporofobia, que é a repulsa por pessoas em condição de miséria".

Nesta luta pelo direito das mulheres de sobreviver com saúde ao machismo e aos ataques misóginos do conservadorismo, a médica Priscila citou várias ações após a primeira menstruação tais como: o acesso a métodos contraceptivos efetivos, acesso ao pré-natal de qualidade, o enfrentamento à violência obstétrica, descriminalização do aborto, prevenção de câncer de colo e mama, desmedicalização da velhice, enfrentamento das situações de violência contra a mulher e combate à cultura conservadora misógina. "Educação e organização das mulheres transformar esta realidade", afirmou Priscilla.

A secretária da mulher trabalhadora da CUT Sergipe, Cláudia Oliveira, avaliou que a participação das mulheres no Encontro foi muito boa com debates oportunos e urgentes para a mulher trabalhadora.

"Realizar um encontro virtual com mais de 100 mulheres que representam trabalhadoras dos mais diversos sindicatos filiados à Central Única dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos estados nordestinos é um indício de crescimento da participação da mulher na política. Ser dirigente sindical, não é tarefa fácil para as mulheres, daí é preciso ressaltar que a cada dia que chegar uma liderança feminina nos sindicatos é importante fortalecer com debates como esse para o seu crescimento e enriquecer a sua formação, afirmou Cláudia.

Acesse o site da CUT Sergipe e confira  um Cordel especialmente elaborado para o Encontro de Mulheres da CUT.

Por Iracema Corso